segunda-feira, 29 de maio de 2023

 A Virgem branca


Eu não vi a imagem branca

Que Portugal nos mandou...

Retiveram-me, os horários

De duas lutas que tenho

Pelo pão de cada dia.

A Virgem foi ao meu bairro,

E eu lá não pude estar!


Quando fui, já a Senhora

Devia estar muito longe,

Recebendo as homenagens,

As preces de outros lugares...

Eu cheguei de madrugada,

Só encontrei o silêncio,

A fala quieta da noite,

O nada mais para ver!


Só vi o sono da praça,

O ambiente tão calado,

De fé e de devoção

Que a santa deixou ficar!

Mil bandeirinhas cansadas,

Falaram-me contristadas:

Que pena! Você não viu!


Vi bambuzinhos de enfeite

Nos quatro cantos da praça,

Subindo na cruz armada

Junto ao coreto central!

Vi os toquinhos de vela

Algumas ainda queimadas,

Se esborrachando no chão,

Morrendo cheias de orgulho

Por terem iluminado

A presença gloriosa

Da Virgem Mãe do Senhor,

A Virgem branca de Fátima!


Respirando o ar de crença

Que a noite guardou pra mim,

Chorei de arrependimento

De não ter largado tudo

E ir juntar-me também

Às filas da procissão

Que via, olhava e rezava

À Virgem que esteve ali!


Minha dor de ser ausente,

Numa homenagem tão justa,

Arrancou-me lá de dentro

As lágrimas que grandes dias,

Não conseguem tirar!...


E chorei soluçando forte

Até não ter mais soluços!

                           

(Rio, 1953)


800 - 

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Família de Guimarães Nato, nome profissional do jornalista e escritor Renato Guimarães (1924 - 2000), inicia agora o blog com as poesias, prosas e demais textos literários e diversos outros que ele deixou. (15/02/2018)

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