A Virgem branca
Eu não vi a imagem branca
Que Portugal nos mandou...
Retiveram-me, os horários
De duas lutas que tenho
Pelo pão de cada dia.
A Virgem foi ao meu bairro,
E eu lá não pude estar!
Quando fui, já a Senhora
Devia estar muito longe,
Recebendo as homenagens,
As preces de outros lugares...
Eu cheguei de madrugada,
Só encontrei o silêncio,
A fala quieta da noite,
O nada mais para ver!
Só vi o sono da praça,
O ambiente tão calado,
De fé e de devoção
Que a santa deixou ficar!
Mil bandeirinhas cansadas,
Falaram-me contristadas:
Que pena! Você não viu!
Vi bambuzinhos de enfeite
Nos quatro cantos da praça,
Subindo na cruz armada
Junto ao coreto central!
Vi os toquinhos de vela
Algumas ainda queimadas,
Se esborrachando no chão,
Morrendo cheias de orgulho
Por terem iluminado
A presença gloriosa
Da Virgem Mãe do Senhor,
A Virgem branca de Fátima!
Respirando o ar de crença
Que a noite guardou pra mim,
Chorei de arrependimento
De não ter largado tudo
E ir juntar-me também
Às filas da procissão
Que via, olhava e rezava
À Virgem que esteve ali!
Minha dor de ser ausente,
Numa homenagem tão justa,
Arrancou-me lá de dentro
As lágrimas que grandes dias,
Não conseguem tirar!...
E chorei soluçando forte
Até não ter mais soluços!
(Rio, 1953)
800 -

Nenhum comentário:
Postar um comentário