quinta-feira, 25 de maio de 2023

O milagre da rosa


Vi uma rosa rubra, deslumbrante,

Como a rainha de um jardim pequeno,

A balançar-se alegre, provocante,

Parecendo chamar-me em leve aceno!


Abeirei-me das grades com cuidado,

E sem desprender os olhos da flor,

Pude experimentar, extasiado,

Profundamente, o seu divino odor!


E com ciúmes de que alguém viesse,

Tal como eu, gozar desse prazer,

Em meu cérebro, súbito, aparece

O plano de a bela rosa colher!


Tendo essa ideia fixa na mente,

De querer só para mim, pra mim, somente,

Aquela joia-flor maravilhosa,

De um salto, rápido, galguei as grades;

Desrespeitando o convento dos frades,

Corri para a roseira, para a rosa!...


Mas, quando eu a toquei com a minha mão,

Tive o castigo da violação

Que, criminosamente, perpetrara:

Aquela rosa que eu tanto queria,

Por um milagre que eu bem compreendia,

Em rosa de papel se transformara!

                     

(Rio, 04/1948)


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Família de Guimarães Nato, nome profissional do jornalista e escritor Renato Guimarães (1924 - 2000), inicia agora o blog com as poesias, prosas e demais textos literários e diversos outros que ele deixou. (15/02/2018)

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